O Rio de Janeiro tem sido documentado e comentado no mundo em razão de suas famosas favelas e da conseqüente violência trazida por elas, mas esse problema é apenas um reflexo de alguns acontecimentos do século passado.
Por volta de 1900 a cidade já era considerada bastante povoada, e a má estruturação dos cortiços, a falta de saneamento básico, a falta de higiene causavam várias doenças que se alastravam por todo o Rio, causando várias epidemias e conseqüentemente mortes.
A República ainda era uma novidade, e a capital era a cidade maravilhosa, que nas vistas do então presidente Rodrigues Alves deveria ser reconstruída para solucionar os problemas de estruturação e saúde.
Oswaldo Cruz, que assumiu a Direção Geral da Saúde Pública iniciou os trabalhos de combate a mosquitos transmissores de doenças e ratos, mas a população não concordava com a vacinação obrigatória e os militares, que desejavam o poder, incitaram a população contra tal medida adotada pelo governo, na tentativa de um golpe militar.
Rodrigues Alves autorizou o então prefeito do Rio de Janeiro, engenheiro Pereira Alves, a reorganizar a cidade.
Os cortiços da capital brasileira foram destruídos, dando lugar a praças, avenidas modernas, ao Teatro Municipal, e os prédios públicos, que deveriam ser destinados à moradia, não cumpriram tal meta.
Milhares de pessoas ficaram desabrigadas, e no desespero por moradia foram autorizadas a retirar os restos de madeira da demolição dos cortiços para construírem barracos e se abrigarem enquanto os prédios públicos não ficavam prontos.
Os prédios não ficaram prontos até hoje, mais de 100 anos se passaram e a população das favelas, substitutas dos cortiços, só aumentou e nos mostrou que a medida adotada pelo prefeito Pereira Alves não mudou a realidade do século passado, trazendo rastros trágicos para o século atual.
Antigos problemas de saneamento persistem até hoje, e em uma das maiores megalópoles do mundo podemos observar o contraste entre riqueza e miséria por onde olhamos.
Morros foram invadidos, a cidade não tem espaço para crescer, o poder público perdeu a autoridade sobre as favelas, e as pessoas que não encontravam mais solução para suas desgraças se entregaram à criminalidade, cravando uma guerra contra o Poder Público.
A má distribuição de renda no país, abraçada com a crescente corrupção, só aumentou a violência e a sensação de impunibilidade.
Fazer parte do crime, dentro das favelas, para muitos jovens que ali crescem é sinal de autoridade, status, superioridade.
Deixamos a educação e a saúde em segundo plano, o mais importante sempre foi alimentar os bolsos dos governantes, mesmo não sendo todos corruptos aqueles que o eram garantiram estragos suficientes na estrutura do país.
Em decorrência da má distribuição de renda, do baixo nível de escolaridade, dos baixos salários, da falta de saúde e saneamento, até mesmo alguns daqueles que deveriam combater o crime e garantir a segurança da sociedade passaram para o lado da criminalidade.
O documentário “Notícias de uma guerra particular” nos mostra as conseqüências de decisões mal tomadas, inaptidão do país em distribuir corretamente a renda, garantir os direitos básicos à sociedade e erradicar a marginalização.
Se observarmos bem nossa Lei Maior e imaginássemos como o país seria se tudo que ali está previsto fosse garantido seríamos não só uma nação desenvolvida, mas a melhor nação desenvolvida.
Iniciando a leitura da Constituição Federal podemos observar no artigo 3º, dentre os objetivos fundamentais do país, a previsão da erradicação da pobreza e marginalização.
Pouco adiante prevê o artigo 6º a maior utopia nacional, que visa garantia dos “direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados”.
Infelizmente ainda estamos longe de tal realidade.
Este documentário demonstra a ousadia e coragem dos criminosos, que mesmo conhecendo os riscos da criminalidade ainda acreditam que arriscar a vida e a liberdade é a melhor opção.
A forma que esses indivíduos são tratados pelo Poder Público só os revolta ainda mais, os tornando cada vez mais perigosos, destemidos, autoconfiantes.
Conforme cresce a autoconfiança dos criminosos diminui a segurança da população, que passa a viver com medo por não estar a salvo em nenhum lugar, pois o Estado já não sabe como combater o problema e a idéia de impunidade passa a reinar.
Armamentos pesados são livremente distribuídos entre os criminosos dos morros, que não têm o mínimo remorso em tirar a vida de quem quer que seja, nem medo de perder a própria vida.
Crianças crescem observando tal realidade, e se tornam adultos mais violentos, não vêm saída para seus problemas senão a criminalidade, que garante o dinheiro e a impunibilidade.
O vídeo demonstra que os menores infratores detidos pelo Estado não pretendem deixar o crime para viver do esforço do trabalho honesto.
Adolescentes e crianças agridem, roubam, matam e ainda dizem que farão novamente, quantas vezes for preciso, não acreditam que a educação os ajudará.
A banalização da vida nunca foi tão grande. A vida custa um tênis de marca, um relógio, alguns poucos reais, uma TV, um carro, uma jóia, ou até mesmo uma dívida por drogas.
Países em guerra declarada possuem as mesmas armas utilizadas nos morros cariocas, armamentos cada vez mais modernos chegam e muitas vezes são distribuídos pela própria polícia ou pelas forças armadas.
Quem observa de fora poderia dizer que o Brasil é um país em guerra, que somos insurgentes ou beligerantes. Mas não somos. A guerra é entre os próprios criminosos, que disputam a distribuição de drogas nos morros.
Várias pessoas perdem entes queridos nessa “guerra particular”.
Já está na hora de criar políticas eficientes para educar as crianças, antes de elas optarem pelo crime, garantir o trabalho, a renda, a moradia, a saúde e a segurança, ou continuaremos perdendo muitas vidas por absolutamente nada.
Não podemos banalizar a vida, fazer apologia a criminosos mostrando na TV que são impunes e invencíveis, produzir filmes sobre grandes crimes cometidos no país demonstrando a engenhosidade e ousadia, isso só aumenta o ego dos criminosos e influencia ainda mais a criminalidade.
Devemos valorizar a educação para escolha de melhores políticos, aprender a respeitar as regras para exigir que elas sejam respeitadas e principalmente aprender a usar o poder que temos em nossas mãos de cobrar medidas eficientes dos governantes ou tirá-los do poder.
O povo brasileiro ainda não entende o poder que possui nas mãos, e os maus governantes manipulam para que continue assim, mas ainda podemos reagir e acabar com todas as “guerras particulares” que assombram nosso país.